
"Cada vez que o gênero festivo (cheio de artistas globais, que nunca fizeram cinema e raramente viram um filme brasileiro ou latino) começa a saturar, o pessoal "cinemeiro" volta ao poder e o Festival ganha consistência"
Dizem que o brasileiro é um chato nato. Assim, uma antiga piada sobre a (então) sempre protelada vinda de Sinatra ao Brasil, contava que, um dia, "The Old Blue Eyes" finalmente tinha vindo cantar no Maracanãzinho, e o sucesso havia sido tão grande que, um ano depois, ele tinha resolvido voltar a fazer uma nova apresentação. Resultado: os mesmos que o haviam saudado da primeira vez como "o maior cantor popular de todos os tempos, finalmente em nosso país", no retorno se limitaram a bater ombros e dizer: "Pô, lá vem aquele chato do Frank, de novo". O próprio Sinatra acabou vindo mesmo, no Maracanãzinho, com enorme sucesso, mas talvez, tendo ouvido a piada, nem pensou em voltar. Mas, anos depois, os Rolling Stones vieram e retornaram com igual sucesso. Vai ver, mudou o país.
Ou quem sabe não.
Nestes dias que antecedem (ou, talvez para o leitor, em que acontece o 29º Festival de Cinema de Gramado), não é raro ouvir-se, mesmo entre os amantes do cinema, a expressão: "de novo"? É, de novo. Quase trinta anos de um Festival, que não é mais o mesmo (foi do "cinema brasileiro", virou "do cinema latino" e agora é dois em um) soam meio como que um desaforo para boa parte da imprensa especializada do centro do país, a mesma para a qual futebol só existe no Rio ou em São Paulo, música brasileira é só samba (ou baianidades aculturadas) e assim por diante. Pois Gramado resiste. Perde em idade para Brasília, mas resiste como local de respeito.
Não é fácil.
Há tantas visões do Festival, tantos interesses, que parece um milagre ele não ter sucumbido às lutas internas. A mais visível delas é municipal. A Prefeitura de Gramado alterna-se entre o PDS e o PMDB com uma regularidade maçante, e raras exceções (houve mais de uma?), irrelevante. Como em toda a cidade pequena, não há diferenças ideológicas marcantes entre os diversos partidos mas, em Gramado, o revezamento leva à constatação de diferenças no trato cultural. Uns são mais festivos, outros mais cinemeiros. O que parece um problema, pode fazer parte do sucesso do evento. Cada vez que o gênero festivo (cheio de artistas globais, que nunca fizeram cinema e raramente viram um filme brasileiro ou latino) começa a saturar, o pessoal "cinemeiro" volta ao poder e o Festival ganha consistência. Depois, quando por excesso de consistência ele se afasta do público, os festeiros ganham a eleição e o Festival volta às graças de "Caras" e afins. Vinte e nove anos devem significar algo.
Mas não se iludam muito. Nem os festeiros desprezam o debate sério, nem os cinemeiros deixam de gostar de uma boa festa. Então, neste equilíbrio entre semelhanças e diferenças, o Festival vem resistindo aos anos, mas não sem problemas. O maior deles é uma consistente crise de identidade. Nos últimos anos, a questão vem se arrastando e multiplicando posições: o Festival deve ser brasileiro ou aberto a produções externas? E, neste segundo caso, aberto segundo que critérios? A culpa da mudança foi do Collor. Quando exterminou a Embrafilme ele terminou também com a produção nacional. Sem questionar a justiça ou não deste ato, a verdade é que de um ano para outro Gramado viu-se sem filmes para justificar o Festival. Literalmente não havia filmes brasileiros em número suficiente para que o Festival pudesse ser realizado. A solução foi abrir-se ao Cinema Latino. Solução de emergência, implantada na esperança de que fosse temporária. Mas, a internacionalização foi vista por alguns organizadores não como isto, uma solução de emergência, mas como "um passo à frente". Com o proverbial deslumbramento tupiniquim a tudo o que vem de fora, pensaram estes que, agora sim, o Festival havia ficado grande.
Bogagem, é claro. De o mais sério Festival de Cinema Brasileira, perdendo em expressão apenas para o de Brasília, que, afinal, é na Capital Federal, Gramado transformou-se em um dos mais furrecas festivais internacionais. Nem mesmo em termos de "cinema latino" ele tem grande expressão. Perdeu, com isto, o Cinema Brasileiro, e perdeu o próprio Festival, cada vez mais indefinido. Este ano a premiação foi separada, brasileiros de um lado, latinos de outro, mas isto apenas tornou mais gritante a bobagem. Ao mesmo tempo, o que o Festival durante muito tempo teve de melhor, que era o tratamento igualitário a todas as bitolas, com a festa de premição reunindo desde superoitistas até os Barretos, acabou. Super-8 (uma bitola que surpreendentemente ressucitou) e 16 mm não participam mais da festa de premiação final, foram relegados a outro dia. Não há mais espaço para se revelarem, em pé de igualdade com os realizadores profissionais, nomes como os Carlos Gerbase, Giba Assis Brasil, Nelson Nadotti ou Jorge Furtado.
E aqui um depoimento pessoal. Durante muitos anos meu pai foi presidente do Festival, e mais de uma vez, o vi escutar de grandes produtores, que era preciso tirar a "premiação menor" da grande festa, pois "aqueles" filmes nada tinham a ver com a importância da produção profissional. P.F. Gastal apenas ria e respondia: "Um destes guris, que se revele a partir daqui, valerá todos os outros cujos filmes ruins teremos que aguentar. Além disso, vocês nem assistem aos filmes, só a premiação, então não incomodem e deixem a gurizada ter seu espaço respeitado".
O que a pressão dos produtores não conseguiu, a pseudo-internacionalização realizou. O espaço, que antes era dos novos realizadores - hoje mais de um "daqueles guris" é respeitado até internacionalmente - foi dado ao cinema latino e às estrelas globais. O desbunde entrou no lugar do incentivo à nova produção, e a premiação do Super-8 e até do 16 mm foi levada para outro dia, como se fossem realizações menores e menos importantes. No fundo, Gramado tem pretensões a ser um Oscar cucaracho, em vez de reassumir a posição de evento pensante do Cinema Brasileiro. Produção não falta mais, a qualidade dos filmes é melhor do que nunca. Mas, Gramado parece ter optado por ser um festivaleco latino em vez de voltar a ser o momento de debate do Cinema Nacional. Os que optaram por este caminho não percebem que, se ele for bem sucedido, Brasília, enquanto capital, tem melhores condições para optar por ele e tirar o espaço de Gramado.
Até por ser em um lugar pequeno, isolado, onde tudo é próximo e convida à conversa, Gramado precisa retomar a sua posição de pólo pensante do Cinema Brasileiro. Se alguma forma de internacionalização acontecer, que seja em termos de Festival do Mercosul ou, melhor ainda, do extremo sul, reunido Brasil, Uruguai e Argentina. O resto é pura pretensão. Nestes últimos dias, tenho ouvido e visto, no rádio e na TV, um monte de bobagens de gente que tem menos idade do que o Festival. "Ninguém conhecia Gramado antes do Festival de Cinema" é a mais recorrente, dita por gente incapaz de imaginar a quantidade de gente que subia a serra na Festa das Hortênsias, e o espaço na mídia de todo o país que esta festa conquistava. O Festival de Cinema deu, isto sim, mais consistência cultural ao fluxo turístico para a serra. O resto do crescimento econômico de Gramado e Canela veio, mesmo, na esteira da nova estrada e na da industrialização de duas cidades que, há três décadas, eram pacatas e tranquilas.
Pode ser que, visto agora, o Festival pareça mesmo ser apenas um evento turístico como qualquer outro. Mas houve tempo em que foi um dos lugares onde a inteligência brasileira se reunia para discutir como burlar a censura, como combater a ditadura, como lutar por um país melhor. Perdeu-se um pouco de seu encanto como núcleo criativo. Perdeu-se um pouco de sua força. E o mais curioso é que isto nem se deve tanto aos organizadores da própria cidade, independente do partido de plantão que esteja na Prefeitura, mas daqueles tantos outros que, de fora, chegam com idéias "geniais" para ingerir num produto que é autenticamente gramadense.
O ponteiro está perdendo o rumo. A idéia de criar uma Fundação para gerir o Festival até já foi boa, mas no momento mais parece uma tentativa quase partidária de tirar da cidade a gestão do evento. Com aquela soberba típica das capitais, muita gente acha que os gramadenses não têm condições de tocar o Festival, e querem trazer para a "grande cidade" a gerência do mesmo. Seria um erro. Os 29 anos de Gramado mostram que, entre erros e acertos, o jeito interiorano de fazer as coisas está mantendo este evento mais vivo que dezenas de outros criados e geridos na capital. O Festival é em Gramado e de Gramado, e assim deve permanecer. Se possível, deixando de lado o desbunde, e voltando a ser de Cinema Brasileiro, o maior evento de debate cultural que este país já teve.
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Texto de Ney Gastal de 04/08/2001.
Fonte: http://www.baguete.com.br/colunasDetalhes.php?id=488